terça-feira, dezembro 30, 2003

Koba.

Acabo de ler Koba, o Terrível de Martin Amis. E volto às palavras com que Amis o abre:

“Eis a segunda frase de The Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-Famine (A Ceifa da Dor: A Colectivização Soviética e o Terror-Fome), de Robert Conquest:
«No caso presente, podemos pôr isto em perspectiva se dissermos que nos actos aqui registados se perderam cerca de vinte vidas humanas, não por cada palavra, mas por cada letra deste livro.»
Esta frase representa 3140 vidas. O livro tem 411 páginas.
«Comia-se estrume de cavalo, em parte porque muitas vezes continha grãos inteiros de trigo» (1502 vidas)”

O livro continua. Letra a letra.

Já tinha lido sobre a ” perfeição negativa” - como Amis chama à vida durante o regime de Estaline. Já tinha lido longas passagens do Livro Negro do Comunismo e a lúcida reflexão de José Pacheco Perreira que constitui o prefácio à edição portuguesa. Já tinha lido Um dia na vida de Ivan Denisovitch de Soljenitsine, sobre o qual, Varlam Chamalov, autor dos Contos de Kolima – Kolima foi um dos mais duros campos soviéticos – sobre o qual Chamalov disse “poderia ter passado uma vida inteira muito feliz num campo descrito em Um dia na vida de Ivan Denisovitch” e este livro já é uma definição do horror, da ausência de luz. Já tinha lido Mil Novecentos e Oitenta e Quatro de Orwell... já tinha lido, o que é significativamente diferente de conhecer. Já tinha lido mas não foi suficiente, acho que nunca o será. A bestialidade é muito grande, não tem fim. A bestialidade surpreende a cada vez.
A crítica a Koba de Amis não é consensual. Pode ler alguma aqui. Mas para ser sincero pouco me interessa. A crítica a koba, a Estaline ainda não está completa. Faltam, pelo menos, quatorze letras: Correia do Norte.
Faltam muitas mais. Um dia havemos de as juntar, para ler o horror. A bestialidade surpreende a cada vez.

terça-feira, dezembro 02, 2003

Às vezes.

Às vezes não se tem nada para dizer. Para acrescentar. O que os sentidos nos trazem logo levam, às vezes.

quinta-feira, novembro 27, 2003

Encantar, cantando.

É já este Sábado, dia 29, às 23h00, que a Marta Hugon vai cantar no Hot Clube. Com o Filipe Melo ao piano, o João Custódio no contrabaixo e o Marco Franco na bateria. E comigo, deslumbrado, entre o público.

quarta-feira, novembro 26, 2003

Rir é o melhor remédio.

“Era uma vez um palhaço que ao olhar pela janela de um Hospital viu lá dentro uma criança. Posso entrar? Em Setembro de 1993 após ler um artigo sobre médicos palhaços que visitavam crianças hospitalizadas nos EUA, Beatriz Quintella decidiu desenvolver um trabalho como palhaço voluntário em vários hospitais na região de Lisboa. A experiência foi fascinante e à medida que pesquisava descobriu outros grupos por todo o mundo que desenvolviam programas nesta área. Após visitar o Big Apple Clown Care Unit em Nova York e os Doutores da Alegria no Brasil convidou Bárbara Ramos Dias e Mark Mekelburg para juntos criarem um projecto de animação de crianças hospitalizadas em Portugal. Em Setembro de 2001 graças ao apoio financeiro da GlaxoSmithKline, este projecto assume um carácter profissional. No dia 4 de Junho de 2002, é constituída uma Associação sem fins lucrativos denominada Nariz Vermelho – Associação de Apoio à Criança, que tem como projecto principal a Operação Nariz Vermelho.”, como se pode ler aqui. Hoje estes doutores especias visitam o Hospital Dona Estefânia, o Hospital Santa Maria, o Instituto Português de Oncologia e o Hospital São Francisco Xavier e enchem-nos de alegria. Hoje, todos podemos ajudar. Veja como aqui. Ou compre por apenas 2€ o CD de Natal da Leopoldina em qualquer Continente, Modelo ou Worten e contribua para esta causa. Hoje.

terça-feira, novembro 18, 2003

A farmácia.

Na parte de trás da farmácia dos meus pais começava o que durante muitos anos foi o meu mundo. Um degrau valente da altura de dois e uma estante em “L” cheia de remédios separava-o do balcão e das conversas quase sempre sérias, obrigatoriamente à volta das doenças do dia e do bairro. A estante em “L” dava para uma sala forrada de mais estantes forradas de mais remédios, em que cada espaço estava minuciosamente aproveitado até ao tecto. Lá no alto arrumavam-se os últimos remédios. Quando na sala das estantes, o meu pai subia ao pequeno escadote para lá do alto tirar um remédio, o tempo demorava-o sempre um pouco mais. A sua bata alva e sem mácula dançava sobre os meus olhos e libertava um lento murmúrio que descia pelas paredes. Era a preçe de um homem que sem fé pedia para que aquele não fosse o último remédio. Para a pessoa que eu corria a espreitar. De dia, na sala das estantes só haviam remédios e silêncio, aí a minha existência acontecia em segredo, não se podia fazer barulho que não se ouvisse lá na frente, ao balcão. A sala das estantes tinha duas portas contíguas, uma para o escritório, onde raramente entrava, e outra para a cozinha de mármore adaptada a laboratório. No laboratório, como o meu pai fazia questão que se dissesse, estavam duas das coisas de que eu mais gostava: a possibilidade de sempre que não chovia ir para o quintal das traseiras, onde o meu pai tinha plantado uma árvore de borracha no meio de meia tonelada de areia que lá se mandara colocar para eu brincar e que fazia as delicias dos gatos das redondezas. E as caixinhas. No quintal brincava eu, no laboratório brincávamos os dois. As caixinhas redondas de plástico branco eram dos meus brinquedos preferidos. E eram inesgotáveis. As caixinhas de plástico, eram dadas pelo meu pai e pela minha mãe aos clientes que encomendavam remédios que a indústria não fazia ou não fazia em quantidade. Gostava de ver o meu pai a engrossar a pasta de um lado para o outro com a sua espátula sobre a extensão de pedra-mármore, depois de a ter pisado no almofariz. No laboratório, as embalagens dos mediacamentos davam lugar a muitos frascos e frasquinhos de vidro, todos devidamente etiquetados, uma vez que os potes antigos de porcelana estavam na parte da frente da farmácia a cumprir uma nova função. Faziam do lado de dentro o que o letreiro preto com as letras abertas a ouro fazia para a rua: davam-lhe o ar de uma farmácia tão pequenina como simpática. Os meus brinquedos, as caixinhas, eram vendidas pelo meu pai e mãe de formas diferentes. O meu pai com um aperto de mão e um curto “as melhoras, sim?”. Já a minha mãe prolongava a entrega do remédio até deixar o meu pai doente. Não o fazia de propósito ou porque pensasse que estava a dar os meus brinquedos, mas porque não o sabia fazer de outra forma. Entregava os remédios conversando. Até muito tarde o meu pai achou que enquanto ele aviava cinco clientes, a minha mãe falava, falava apenas com um. Até muito tarde, o meu pai não soube compreender que os muitos e rápidos clientes que ele aviava só iam àquela farmácia por já terem conversado com a minha mãe. A minha mãe, que ontem fez 77 anos e já não poderia vencer o degrau valente da altura de dois, ainda é o meu remédio, a minha caixinha.

sexta-feira, novembro 14, 2003

Contra a violência contra as mulheres 2.

Não resisto a contar o anúncio de imprensa.

No portão de uma banal moradia, a placa "Cuidado com o Cão" foi substituída por uma outra: Cuidado com o marido.

quinta-feira, novembro 13, 2003

Contra a violência contra as mulheres.

Há uns meses atrás, a Gabi, o Jorge e com certeza muitos de nós, demos com uma notícia de jornal cujo título dizia: “Em Portugal, a violência doméstica mata cinco mulheres por mês”. Ficámos chocados porque não sabíamos, não imaginávamos. No seu corpo, a notícia prosseguia violenta: na Europa, a violência doméstica é a principal causa de morte e invalidez entre mulheres dos 16 aos 44 anos, ultrapassando doenças como o cancro e os acidentes de automóvel, e uma em cada cinco mulheres é vítima, pelo menos uma vez na vida, de agressões no espaço doméstico” (segundo um estudo do Conselho da Europa). Depois do choque, a Gabriela Hunnicutt, o Jorge Barrote, a Raquel Coimbra, o Papi e toda uma equipa da J. Walter Thompson fizeram alguma coisa. Uma campanha de imprensa, rádio e televisão, assinada pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, para assinalar o Dia Internacional Contra a Violência Contra as Mulheres, que se comemora já no próximo dia 25 de Novembro. Para assinalar o dia, mas não só. O dia apenas vai servir de pretexto para colocar o dedo na ferida e a ferida na agenda da actualidade. A campanha vai dizer a todos os portugueses, vítimas incluídas, que a violência doméstica já é um crime público que todos temos o dever de denunciar. O ar do tempo que todos os dias respiramos faz-nos constatar que somos sujeitos a overdoses de estímulos e que, em consequência, é cada vez mais difícil à publicidade mudar comportamentos. Por essa razão, esta campanha não é uma campanha qualquer. É uma campanha dura, muito dura. Os anúncios podem chocar – vão chocar muita gente - mas nunca mais do que a própria realidade. Deixo imediatamente abaixo o texto do spot de rádio – um dos melhores que até hoje ouvi – de uma campanha que poderá ver, ouvir e ler já a partir de Sábado, dia 15.

“Uma voz masculina - com o eco próprio de uma igreja e a sinceridade do momento - diz em primeiro plano:

V.M.: - EU, ANTÓNIO JOSÉ, PROMETO ESMURRAR-TE E HUMILHAR-TE,
ATIRAR-TE AO CHÃO E DAR-TE PONTAPÉS, NOS MOMENTOS DE RAIVA E DE FÚRIA, SEM DÓ NEM PIEDADE, DURANTE TODOS OS DIAS DA MINHA VIDA… ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE.

Neste momento, uma voz de companhia feminina explica:

V.C.: - CINCO MULHERES MORREM TODOS OS MESES EM PORTUGAL VÍTIMAS DE AGRESSÕES. A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA É CRIME PÚBLICO. TODOS TÊM O DEVER DE DENUNCIAR.

25 DE NOVEMBRO. DIA INTERNACIONAL CONTRA A VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES. APOIO: APAV. ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE APOIO À VÍTIMA. “

Como nos diz a APAV, “ao contrário do que se pensa, a agressão física não é a única forma de violência. Muitas mulheres são intimidadas, ameaçadas, sofrem privação económica, além de agressões psicológicas e sexuais. E uma vez que a violência começa, tende a piorar e a tornar-se cada vez mais mais frequente. Muitas vítimas não denunciam por vergonha, outras por princípios religiosos, mas a maioria tem medo. O que muitos não sabem é que a violência doméstica agora é crime público, por isso não é necessário que seja a própria vítima a fazer a denúncia. Qualquer um que tenha conhecimento de um caso, dentro ou fora da família, também pode e deve denunciar. A APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima - tem um número de denúncia que funciona de segunda a sexta, das 13h às 19h: 707 20 00 77.”

Para mais informação, visite a APAV, conheça o II Plano Nacional Contra a Violência Doméstica e leia a opinião de um especialista.

segunda-feira, novembro 10, 2003

O riso da Maria.

A minha filha sorri pouco e, na dúvida, ainda bem. Quando ri, a Maria ri com os olhos e o pescoço e o corpo inteiro, deixa-se ir e arrasta-me, perde forças, todas as forças que eu ganho, que recupero para mim imeditamente ali, como se o seu riso fosse um acrobata que alto e a bom som salta de um trapézio para outro, mesmo se muitas vezes nos rimos, sem saber do que rimos, de coisas diferentes, o riso continua dobra-se e desdobra-se em gargalhadas consecutivas, numa só. Já não é um riso completamente inocente, é já um jogo, que me lembra a inteligência da mãe. A mãe que todos os dias, mostrando-lhe qualquer coisa nova, lhe arranca um oh! de surpresa, um oh! tão verdadeiro que não conseguimos conter uma gargalhada e ela de volta inunda-nos com as dela. Que a Maria nunca sorria podendo rir.

sexta-feira, novembro 07, 2003

Jazztel

Bar Projecto Jazz em Pombal, hoje e amanhã: a partir das 23h00 pode ouvir a voz de Marta Hugon, o piano de Filipe Melo e o contrabaixo de João Custódio a interpretarem standarts de jazz.

Júlio de Matos, dia 18 deste mês: às 22h30 pode ouvir os Four & More, grupo composto por Mário Monteiro na guitarra, João Gomes - dos Cool Hipnoise e Space Boys - nas teclas, Pedro Pinto no contrabaixo e João Lencastre na bateria acompanham a voz de Marta Hugon.

E lá para o fim do mês, está confirmado, a Marta vai ao Hot Clube cantar e encantar. Lá estarei. Assim que souber a data...

quarta-feira, novembro 05, 2003

Bloguitica.

Paulo Gorjão decidiu acabar com os Bloguitica Nacional e Internacional e criar um único blogue, o "Bloguitica", cujo link está já aqui mesmo ao lado. A sua leitura é, ao mesmo tempo, um prazer e uma obrigação.

terça-feira, novembro 04, 2003

Cara a Cara.

A não perder. Aqui.

quarta-feira, outubro 29, 2003

Estranhos de passagem.

A câmara não se sente. A indignação sobrepõem-se ao género, ao thriller e sacode-nos. Stephen Frears filmou a vida, a vida de dois imigrantes em Londres. A cidade que nos é dada a ver é muito mais suja e extravasa os seus postais, na verdade, poderia ser qualquer outra, uma vez que Londres ficou uma cidade anónima. Anónima como a vida, a subvida das pessoas que fazem um trabalho que não vemos, que nos fazem as camas nos hoteis ou que limpam as secretárias dos edifícios em que trabalhamos horas antes de lá chegarmos. Nós nunca estamos lá para as ver. São gente que trafica mercadorias ilícitas, como elas próprias, como os orgãos dos seus próprios corpos. Gente que vive a morrer devagar, que não vemos. Que insistimos em não respeitar porque não vemos. “Estranhos de Passagem” é um filme muito triste, muito bonito.

Na Europa, a questão da emigração já não é nova mas é de hoje. Todos o sabemos: não é um problema de resolução fácil e está longe de ser consensual, mas a todos diz respeito. À direita, a estupidez e a ignorância está bem patente: a xenofobia (sob a capa do medo) chegou ao poder. À esquerda, outros populismos perigosos e cegos, teimam em não perceber, em primeiro lugar, as razões pelas quais, por exemplo ainda na semana passada pelo menos 13 africanos perderam a vida em pleno Mediterrâneo na sua desesperada tentativa de chegar à Europa. Fugiam de uma prematura morte certa, a que a miséria do seu país de origem os tinha condenado. Acolher e integrar imigrantes significa, antes de mais, conceder-lhes os nossos direitos mas também os deveres. Significa respeitar todas, sublinho todas, as suas especificidades de toda a natureza que não colidam com as regras pelas quais vivemos em sociedade. Mas não só, porque pura e simplesmemte não é possível abrir as fronteiras. É preciso combater a pobreza na sua origem. E de forma completamente diferente da que temos feito até aqui. Para começar a ajuda tem que ser necessariamente maior. Mas sobretudo deve ser melhor. A cada cêntimo de ajuda deveria corresponder um cêntimo para verficar e garantir a boa aplicação do primeiro. Sobre este assunto, a Europa podia e devia, pelo menos por uma vez, olhar para os Estados Unidos. E acredito, está aberta a polémica no isqueiro. “Estranhos de Passagem” de Stephen Frears é a Europa ao espelho.

Lucidez.

Por meia hora voltei a acreditar – seguramente muito mais do que acredito hoje em dia – que há homens e mulheres excepcionais. Falo sobretudo de políticos. Admiro Mario Vargas Llosa, escritor, jornalista e professor universitário peruano que ainda há uns anos atrás não hesitou em concorrer às eleições presidenciais no seu país. Gosto muito do que escreve e revejo-me em grande parte do seu pensamento. Na 5ª feira passada na RTP 1, Vargas Llosa respondeu com inteligência às perguntas pueris e desemxabidas de Judite de Sousa. Cito de memória duas respostas. Sobre ideologias: “A utopia é qualquer coisa de extraordinário mas é péssima e perigosa em termos colectivos. A utopia é individual, não pode ser exterior ao indivíduo”. Sobre o acto de escrever: “Tenho mais prazer em reescrever do que em escrever, pela primeira vez.”

sexta-feira, outubro 24, 2003

Onde começam os fins de semana?

Numa tosta mista aparada com manteiga por cima. No ruído das chavenas a serem empilhadas em cima da máquina do café. Nas conversas à volta das mesas que dão vida às letras impressas nos jornais do dia. No instante em que dou comigo a pensar que na simples leitura de um jornal começa a democracia. E que, para o bem e para o mal, a democracia também é um hábito. Na consciência da minha e nossa situação de privilégio. E no prazer em sentir que as conversas continuam à volta das mesas a dar vida às letras impressas nos jornais do dia. No sítio do costume. Na Ertilas, em Campo de Ourique, tenho a certeza que o fim de semana começou.

Este fim de semana vai começar com o país a arder, novamente.

sexta-feira, outubro 17, 2003

Wordsong, Al Berto

“les mots
les motsfruits les motsjus les mots à mordre les mots à tordre les mots à jouir les mots à cuire les mots voyage… »
Todas as palavras na voz de Pedro d’Orey. Todas as palavras na voz e no piano de Jorge Palma. Ficam para a memória.
Ontem no CCB.

quinta-feira, outubro 16, 2003

E agora

Vou aqui. Para ler de outra forma.

Fatias de Cá

Há sensivelmente dois anos, vi pela primeira vez uma peça do grupo de teatro Fatias de Cá. Corto Maltese ganhou vida numa velha e abandonada distilaria na Brogeira, junto a Torres Novas. A peça foi-nos levando – público confundido com actores - por salas diferentes ao centro da história, cada sala, cada cenário um conjunto de pranchas da personagem maior de Hugo Pratt. “Concerto em Ó Menor para Harpa e Nitroglicerina” era o nome da peça, encenada por Carlos Carvalheiro, e que tinha no livro “As Célticas” de Pratt a base do seu texto. A encenação resultou numa fórmula despretensiosa de fazer de banda desenhada, teatro. Gostei muito.O Grupo Fatias de Cá, que começou em Tomar em 79, tem andado a levar o teatro e todo o seu encanto por esse país fora e a levar de volta esse país fora para dentro de espaços esquecidos do nosso património. Reunir actores profissionais e amadores é apenas outra das singularidades deste projecto que vale a pena seguir. O grupo chegou agora a Lisboa e leva à cena no Castelo de São Jorge a peça “Diálogo das Compensadas”. Vi e não gostei. E escrevo-o assim porque trabalho que têm vindo a fazer merece todo o meu respeito e sinceridade. O texto de João Aguiar e a sua adaptação mais parece um panfleto. E dos fáceis. Se quiser formar a sua própria opinião sobre esta e todas as outras inúmeras peças actualmente em cena, entre em contacto com a central de reservas do grupo:
- tel.:249 314 161; fax:249 313 857; fatiasdeca@oninet.pt. E já agora, ainda em Lisboa, o grupo Fatias de Cá tem em cena "Comissão de Festas" de Alan Ayckbourn, na Casa do Concelho de Tomar.

Dois dias depois do “Diálogo das Compensadas” fui ao cinema ver "Good Bye, Lenin" de Wolfgang Becker. E gostei, diverti-me. Acho que não devemos perder a capacidade de brincar com os erros. Mesmos com os mais graves, mesmo se corremos o risco de os banalizar. Se não pudermos brincar, com inteligência, é porque não aprendemos nada.

quarta-feira, outubro 15, 2003

A minha praia do Porto 2

Descobri Ofir tarde, há uns cinco anos, mas é como se em criança lá tivesse passado muitas férias grandes. É sempre com pena que deixo Ofir. As Clarinhas e as Francesinhas, guloseimas da Nélia. O vento da praia no Inverno de uma aventura dos famosos Cinco. O pinhal encantado de um conto dos irmãos Grimm. As casas como as de uma historinha do Noddy. As recordações. E a possibilidade de fazer amigos depois dos 27 anos. Como se fossem amigos de infância. É sempre com alegria que regresso à nossa praia do Porto.

A minha praia do Porto

À minha frente noite. A estrada toda é igual. O vento manso. Mas a pressa entra pela fresta da janela do carro, a pressa é um vento com fúria e depressa o tracejado da estrada fica contínuo. Uma linha de branco no preto. Divide a estrada ao meio. Não a separa da noite, subtil curva que não acaba. Como a luz mortiça que ilumina pendurada as duas faixas da estrada. E a velocidade traz o sono ao lado no lugar do morto. Já não retiro prazer da condução. A céu aberto muita estrada me separa de casa, de um pouco de céu. A viagem é de alcatrão.

É sempre com pena que deixo a praia de Ofir.

terça-feira, outubro 14, 2003

Acontece

A irregularidade na produção de escrita é tal que já venho ao isqueiro como se não fosse o meu blog. Para ver se este ainda aqui está, para ver se alguém teve a gentileza de escrever por mim. Mas não desisto. Não tenho razões, não deixo a pressa entrar aqui.

Seguidores

Acerca de mim

nunomelodasilva@yahoo.com